- O que foi, cara? Já é a segunda vez na semana que eu tento falar disso contigo e você não quer.
- Não foi nada, não. Deixa pra lá – devolveu, olhando perdidamente pela janela do carro enquanto a chuva molhava os vidros.
Nem ele sabia por que não queria falar daquilo, que não era homem de assuntos proibidos. Seria a estafa mental que o aturdia novamente? As semanas a fio em que acordava pesado, precisando descansar mais e mais apesar de dormidas as horas regulamentares de sono? Seria o exílio que lhe haviam imposto? A luta de classes, o inconformismo com as injustiças de sempre? Alma velha da porra, pensou. Pra quê tanto cansaço, meu Deus?, perguntara o seu corpo, ainda que seu coração não dissesse nada. Mundo, mundo, vasto mundo, quem dera ele se chamasse Raimundo, mas não. Chamava-se Carlos, mas Carlos não rimava com porra nenhuma. E delirava. Delirava com o dia em que chegaria para o chefe e diria: “Faz um favor? Não precisa ser agora, mas quando você tiver um tempinho…”. Opressores e oprimidos. Tem remédio, doutor? “Não, meu filho. Não há medicina para o vazio da alma”. Vez em quando sonhava acordado por poucos instantes. Era que a tortura de existir lhe dava uma pequena trégua para que pudesse se transportar para um lugar melhor, apenas para que agüentasse o tranco de ser torturado novamente. Viver cada vez lhe doía mais.
- Não leva a mal, mas eu não tô a fim de falar.
poxa, faz uma semana que vocês não querem falar nada, não tão a fim de falar…