De repente ela saiu da delegacia algemada, assustada e arredia. Em um instante passou em minha cabeça toda aquela história de jornalistas e abutres. Coloco o gravador na boca dela e pergunto por que ela abandonou o bebê? Embora tudo indique que ela seja mesmo a mãe da criança e a tenha colocado em uma caçamba, eu tenho certeza disso? Então, nesse caso, devo perguntar SE ela abandonou o bebê? Provavelmente não teria tempo para uma segunda pergunta: seriam apenas alguns passos a mais até o camburão. Estarei constrangendo-a com minha pergunta incerta e incômoda? Humilhando-a? E, por outro lado, não tem ela o direito de se manifestar? De dar a sua versão? Perguntei e ela se manteve calada. Puseram-na no porta-malas do camburão e… bam! Fecharam a porta, e meu coração começou a disparar. Uns segundos antes que a viatura partisse um cinegrafista ainda filmava a mulher com a câmera colada no vidro. Abutreria grau mil. O carro foi embora e um silêncio tomou conta do lugar. Torço pra que alguém tivesse pensado o que eu pensei. Que condições de vida terão feito aquela mulher abandonar um bebê em uma caçamba? Acaso não estamos, mais do que diante de um ato de crueldade, encarando um drama social? Chega de moralismos medioclassistas – “nem os animais fazem uma coisa dessas”, “por que não deixou na porta de um hospital?” -, de vilanizações, mocinhos e bandidos, telenovelas da vida real. Por que não buscar compreender antes de julgar, por mais terríveis que sejam os fatos? Por que não destapar os olhos e enxergar que essa mulher é, como todos somos, produtos sociais? Ninguém tem sete filhos, sendo quatro menores de idade, impunemente. Quantos serão os pais de seus filhos? De que forma a terão tratado ao longo da vida? Quem serão seus pais? Que educação terá tido? Que estrutura tem essa mulher pra realizar trabalhos em uma casa de repouso, trabalho que exige certo preparo emocional? Que terá feito ela se deitar com um vigia 19 anos mais velho do que ela e feito um filho quase aos 40 anos? A que grandes dilemas poderá ter se imposto uma mulher cujos estudos não chegaram ao fim do primário? O que passará na cabeça de uma mulher com três filhos pequenos e apenas 600 reais mensais para sustentá-los quando chegam os sinais de uma gravidez? (O que você, que me lê, faz com 600 reais em um mês?) E quando o pai menospreza o fato? Lembrei de Vidas Secas quando o delegado disse que ela só soube informar o primeiro nome do pai da criança: não sabia o sobrenome dele e nem a idade. Terão as condições sociais deixado essa mulher em um estado próximo da animalização? Em caso afirmativo, de quem é a culpa? Em caso afirmativo, quais mesmo foram as mãos que depositaram aquele bebezinho na caçamba?
Bebês, caçambas e a nossa miserável condição
segunda-feira, abril 25 por Fernando