O padre disse na missa que muitas vezes o escorpião se pica para não arder no incêndio. E, automaticamente, eu me lembrei daquele professor de literatura que nos explicava sobre Eros e Tânatos, e sobre o velho embate entre a pulsão de amor e a pulsão de morte que os personagens dos romances e daqueles poemas de carne e osso experimentavam em suas andanças.
E nessa livre associação de idéias, lembrei-me também daquela historieta fabular em que o escorpião pede carona ao sapo para atravessar um lago e, imbuído de precaução, o anfíbio lhe diz que não era bobo nem nada, por isso não poderia levá-lo nas costas, ao que o aracnídeo responde que seria tolice meter-lhe o ferrão, já que — assim feito — afundariam os dois, tragados pelo assassinato-suicídio-sabotagem daquela jangada.
Depois de uma coaxada de pestanejo, o sapo por fim se convence e o leva, até que, no meio da viagem, sente um ardor no dorso. Fora traído. Agonizando, e já rumando para a morte certeira dos dois, o sapo pergunta ao escorpião: afinal, por que matá-lo se assim morreria também? Ao que o escorpião lhe diz, já se encharcando d’água, com tom definitivo: desculpe, mas é da minha natureza.
Noutros tempos, ajoelharia para tais conclusões, já que essas versões sobre o caráter envenenado do escorpião têm um quê de nobre, parecem incluir alguma dose de sabedoria. Hoje, porém, ouço com mais desconfiança essas aparentes pílulas de sapiência, essas máximas sobre o bom viver ou sobre o lado ‘profundo’ da existência.
Justapostas, essas histórias parecem apontar para uma incongruência. Antes mesmo de refletir sobre ela, lembro que sou um homem que rejeita o fatalismo. Essa caraterística que impera no meu espírito é aquela que me impede de aceitar que sejam tidos como fatais [ou naturais] dados historicamente contruídos, e com protagonistas melhor ou pior definidos. É esse tino que me faz bocejar diante daqueles que dizem com a boca cheia “Eu sou assim” [que me perdõe o Paulinho da Viola]. E é essa mesma característica que me faz ter cautela nesse exato momento em que me defino.
Mas as duas histórias sobre o escorpião parecem levar a uma cilada.
A primeira aponta para uma situação em que o animal prefere decidir a forma como quer morrer. Prefere ser o protagonista do próprio suicídio a morrer de uma morte que escape de sua administração. E o ponto aqui, acredito, seja o da vaidade em decidir sobre quem governa esse lance capital. Há quem veja no episódio apenas uma súmula sobre o que seja o desespero. Há quem junte as duas formas de entendimento, ao concluir que, sob a sentença da morte certa e nutrido pelo desespero, pode-se optar pela ilusão de que ainda se decide sobre a própria vida.
Entretanto, há aqueles que douram ainda mais a pílula e interpretam essa situação como um símbolo daqueles que rejeitam a morte indigna, como se fosse possível imaginar que há mortes melhores ou piores. Um amigo antropocentrista — mesmo aquele mais chegado ao terreiro — acredita que essa forma de ver a cousa não passa de discurso de samurai. Algo na linha dos harakiris dos executivos corruptos japoneses que, quando pegos com a boca na botija, metem logo um balaço na cabeça.
Verdade ou não, ridicularizada ou não, essa forma de analisar o fenômeno não deixará nunca de ser dramática. Mesmo que recorramos à fonte eterna de uma ética que nos supera o entendimento, como aquela contida nas palavras de Antígona, que prefere a insensatez a deixar de bradar por justiça: “Deixa a mim e a meu louco projeto, desafiando a força. Afinal, não me arrisco a morrer de morte sem beleza.”
Há quem veja em Antígona ou no escorpião camicase apenas a ineficácia de quem pereceu sem discernir a diferença entre idéia e ação. Diriam eles: morto, ninguém faz a revolução. Outros dizem que o exemplo sobrevive ao que é perecível. Não sei o que pensar sobre isso.
Quanto ao ardiloso escorpião que fere mortalmente o sapo incauto, e com isso mergulha também, pode-se dizer que ele alega ser dotado de uma essência que ultrapassa a sua vontade. Possuiria uma forma de ser e estar no mundo incoercível, indomável. Tão incontrolável que estaria apta a lhe impingir a própria destruição. A idéia parece levar a um paradoxal fundamentalismo da vontade, uma conexão com uma entidade espiritual que transcenderia a necessidade de preservação da própria carcaça mortal.
Essa noção de apego a um valor abstrato e pretensamente superior — que ultrapassaria a própira vida — e que está embutida na segunda história contraria frontalmente o imediatismo da fuga em relação ao sofrimento da primeira história. Alguma coisa não bate nessa tentativa de sabermos, afinal, o que move o escorpião. Afinal, qual é a sua?
Um argumento científico e desmistificador talvez explique a malícia do bicho e aponte para qual das versões seria mais fiel a seu verdadeiro caráter: muitos escorpiões resistem a altíssimas temperaturas e grande parte deles sobrevive dias imersa na água.
Isso só me faz rir e lembrar que fábulas só podem falar mesmo sobre homens. E que existem dias em que a metáfora se gasta, e é preciso estar atento à realidade particular de cada um deles.
Ou tudo, no final, não passa de emboscada e retórica. Já que, bem instalado na pegajosa lombada do anfíbio, o escorpião só pode se vingar por ter — ao contrário do sapo — uma única vida, mesmo que tão longa.
Às vezes, caro Drão (salve salve Dr. Zambon!), a revolução só se faz na morte. Salve El Cid, Salve Inês de Castro…
[...] falariam de Eros e Tânatos, de pulsão de vida e de morte; muitos cindiriam o mundo entre utopia e realidade, entre covardia e coragem; poucos remontariam à [...]