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A favor de novos sentimentos

Se tenho medo? Não sei dizer. Defina medo. Talvez eu precise de comparações. Seria como pular de um para-quedas? Ou como receber a notícia de uma doença incurável? Bom, nenhuma das experiências eu vivi, logo, não vejo utilidade. Nunca tive medo, então. Ou seria mentira, negação, medo?

Por vezes me canso de tentar encontrar explicações para tudo o que sinto e me frustro só de começar a delineá-las, mas mais cansativo é recorrer às denominações conhecidas, que na grande maioria das vezes não me servem. Não sei se tenho medo, é isso. Pode muito bem ser, só que não é o que eu sinto agora, entendeu? Quero inventar um sentimento, sei lá. Buscar uma sensação escondida, vivendo até agora sem ser notada, ou inclusive fazer uma nascer de mim.

Por que as emoções precisam ter pertencido a um outro alguém antes de esbarrarem nas outras pessoas? Ou seja, um dia, há muitos anos, séculos, um indivíduo decidiu sentir alguma coisa e desde então ela vaga pelo espaço, se infiltrando nos outros. Não acho justo que os sentimentos sejam reciclados assim, é estranho. Eu não sinto da mesma forma que a minha…mãe…e mesmo assim, tem o mesmo nome. Ela é diferente de mim e eu dela, como sou de todos ao meu redor, e quero, portanto, classificar e rotular meus sentimentos do jeito que quiser. Ainda não sei como fazer isso, é verdade, porém, acho difícil que não consiga.

Espero. Bem. Talvez demore, pois as pessoas não entenderão o que estou dizendo na primeira vez. “Estou sentindo x, fulana, é bem ruim, sabe?”.

“Não”, ela responderá.

Paciência. Não desistirei.

La mer

E ela nadava, nadava, e se perguntava se não chegaria nunca. Queria chegar logo, embora não soubesse em que praia pararia, qual era o destino que procurava. Sentia que era um lugar bonito, em que o sorriso raramente lhe sairia do rosto. Essa sensação fazia com que nadasse mais rápido, cada vez mais rápido, sem avistar nenhum pedacinho de terra à frente.

Aquele mar, enorme, azul, perdia a beleza perto do que ela achava que estaria por vir. Perto da praia bonita, que simbolizava tudo aquilo por que sempre esperou. Mas nadar tanto, sem nunca encontrar coisa alguma,  cansava, era exaustivo. Começou a achar que não chegaria a lugar nenhum. Que havia perdido o caminho no meio daquele monte de água, que não tinha direções exatas nem setas indicando para onde seguir.

Ela sempre gostou de instruções. Mas sozinha naquele mar não tinha bússola nem amigos para ajudar. A ideia de se virar, de repente parecia estúpida. “Eu não vou saber chegar, eu preciso de ajuda, preciso de alguém que me diga o que fazer. Que me diga que estou nadando pelo caminho certo. Alôôô! Tem alguém aí?”

E o silêncio que vinha do mar era assustador. Teria mesmo que se virar sozinha. Começou a pensar de que maneira poderia fazer aquilo por si só, chegar em um lugar tão bonito, tão desejado, com suas próprias pernas (e mãos, e braços, e costas, e coração. Principalmente coração). “Coração”, repetiu, e, de uma hora para a outra, aquilo pareceu fazer todo o sentido do mundo. Era a intuição que, no fim, sempre lhe guiava. Não eram as setas, os conselhos, a rosa dos ventos. E ela seguiria sempre por perto.

E então o caminho já não parecia tão tortuoso. Ela sabia que, seguindo seus instintos, acharia o seu lugar, em breve ou não. Mas aquilo não a incomodava mais. Antes da praia havia aquele mar azul, enorme, lindo. E que devia ser aproveitado como merecia. Decidiu parar de nadar tão rápido e ficar um tempo boiando. E ela boiava, boiava, sem se perguntar mais nada, porque não tinha mais medo das respostas.

Mínimo múltiplo

1

Em 1999, herdei uma camiseta Lee usada. Para o meu espanto, em 2009, ela não tem furos e é uma das que, em meu guarda-roupas, tem a cor mais vibrante. Se num pedaço de pano pode  haver algo de perene e confiável, que dirá num homem…

2

Em 2009, a despeito de antigos botões e pétalas, ganhei meu primeiro vaso com flores dentro, daqueles que têm terra para regar.

Por três dias, tive que visitar a casa de uma mãe e a casa de um pai. Ao regressar à minha casa, as flores estavam minguantes. Cuidado extra e confiança na própria memória não bastam para uma planta. É preciso água. Humilde, amarrei um laço cor de abóbora no dedo, e agora minha planta confia mais no seu jardineiro.

3

Em 1984, pintei com canetinha o corpo de um pato impresso no papel. Todo amarelinho ele ia ficando belo até eu confundir preto com marrom ao lhe dar pupilas cor de barro.

Ao tentar corrigir — com negro sobre marrom – o erro!: furei o papel, amolecido com tamanha lambança. Assustado por perfurar seus olhos, num movimento abrupto, percorri seu pescoço com um risco. Degolei meu pato.

Meu pai, de plantão, só voltou depois de 48h, para me dizer que é preciso ter cuidado. “Da próxima vez, use giz; faça a mão flutuar, mas não maltrate um animal pequeno.”

4

Em 1973, meu pai — como eu agora — tinha 32 anos. Minha mãe, 23. Por romantismo e economia, usaram as mesmas velas. Hoje já não sopram mais.

5

Em 2007, com um amigo, escrevi uma homenagem ao vento, esse pobre diabo, que caravela ódios e sonhos. Que muda a face das águas, mas nunca seu interior. E que nos permite, ao final, reconhecermos o verdadeiro significado de estarmos juntos.

Continuo acreditando naquilo que permanece.

Um amor

Então eu cansei e decidi que pra mim já era o suficiente. Levantei bruscamente e olhei pela vidraça, um pouco atordoado pela rapidez do movimento, um pouco pelo rum. Olhei lá pra fora. Noite fechada, poucas estrelas, sem vento.

Peguei o revólver em cima da mesa e saí. Pensasse mais vezes, talvez desse meia volta. Não pensei.

Ela estava de costas. Parecia ler, mas sem prestar muita atenção ao livro que tinha sobre o colo. Pressentiu minha presença? Nunca saberei. Sua imobilidade era costumeira. Deixava que os olhos falassem por si, cansara das imprecações. Resignação, diriam alguns, ou prudência. Não importa.

O barulho do tiro que estraçalhou sua nuca provocou uma revoada na copa das árvores. Seu corpo tombou toscamente; o sangue se espalhou para fora da cela com o impacto. O reflexo da lua minguante logo apareceu na poça, num requinte de festim mórbido de quinta categoria.

Observei seu cadáver por longos minutos. Sua persistente beleza me irritou no íntimo. Cogitei dar um segundo tiro no rosto, só para desfigurá-la, mas julguei excessivo. Guardei o revolver no coldre e tomei o rumo da casa, sob o canto das cigarras.

Deitei-me sem nem descalçar os sapatos sujos de terra. Embora seguro do sucesso de meus intentos, não fechava os olhos. Era o temor de que, mesmo tendo assassinado o silêncio, seus gritos mudos continuassem não me deixando dormir.

Planetas

- De que planeta você é? – perguntou-me ela com aqueles olhinhos reluzentes e um sorriso de orelha a orelha.

Era começo de uma tarde calorenta e nublada em Riviera, e eu chegara para encontrá-la não havia muito.

O convite ela fizera uns dois dias antes, por meio desses comunicadores instantâneos – à época passávamos tardes e mais tardes nos divertindo contando histórias pelo computador – quando eu havia dito a ela que voltasse logo da praia:

- Por que você não vem passar o final de semana aqui comigo? Tem cama para dois no quarto.

Uau. Confesso: aquela pergunta eu não vi vindo. Inclusive porque até então só estivéramos juntos apenas uma vez, depois de uns xavecos longos e contrariados.

Eu era apenas um garotinho assustado, e vinha aquele tiro de canhão no peito: por que eu não ia passar o final de semana com ela?

Um pensamento – uma frase dela – martelava minha cabeça havia semanas: “Sabe qual é o problema? O problema é que ninguém banca…”.

O diagnóstico eu tinha feito muito cedo e rapidamente: ah!, essas mulheres modernas, esse novo mal do século, elas que pintam e bordam, e fazem e acontecem, e depois o quê?

“Ninguém banca…”.

Pois eu tinha uma pulsão, e uma certeza: hey-ho, let’s go!

Era aquilo de sentir que o outro também sentia: foi o que aconteceu quando, naquela mesma semana, no dia mesmo em que ela me fez o convite (se não me falha a memória), enquanto eu adentrava um dos bares mais queridos, chegou-me uma mensagem no celular: Walk On estava tocando nos alto-falantes, e o clipe projetado no telão.

Walk On! A música que então eu ouvia até sangrarem os ouvidos, e que eu lhe ofertara uns dias antes.

Vá lá: o destino conspirava a nosso favor.

- Vem, eu te busco na rodoviária.

Eu jogava daqui: não sei…

Fui.

O frio correndo a espinha e a ideia de pegar o primeiro ônibus na direção contrária antes que ela chegasse.

Mas não, claro que não.

Entrei no carro.

- E aí? – indagou-me ela, também tentando disfarçar o natural constrangimento.

“Aqui tudo; a alegria e o medo correndo o meu corpo e querendo sair pela goela”, pensei em responder.

- Tudo bem, e você?

Estávamos maravilhosamente bem.

Cervejas, risadas, algumas comidas gostosas, todo um final de semana na praia pela frente. A vida era aquilo, era então. Nada do senhor futuro e suas chatices a oferecer a cada um de nós milhares de milhões de bifurcações.

De que planeta eu era?

- Não sei, mas acho que do mesmo que você – respondi, já um pouco inebriado, a alegria redobrada pelas primeiras Bohemias, que começavam a fazer efeito.

 

 

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