Feeds:
Posts
Comentários

Sonhar com laranjas

A vida é como uma sacola de laranjas.

Textos com frases diretas e definições presunçosas tendem a angariar antipatias, mas em geral alcançam o feito de chutarem para longe a indiferença.

Por isso, esse chamariz: “a vida é como uma sacola de laranjas.”

Eis o postulado tolo: a sacola vazia é preenchida com laranjas e quando a alça não suporta o peso ela se arrebenta e as frutas caem em rodo pelo chão.

É só isso. Alguém corre para apanhá-las. Esse alguém repara a sacola velha, até a época em que os consertos valham. Quando isso não mais compensar o tostão, o alguém vai e compra [ou fia] outra sacola.

***

E no sonho que eu tive as laranjas não eram uma metáfora, eram laranjas mesmo, e só! Depois, acordado, fiquei inconformado com o sonho sem simbologias, assim tão cru, com casca e sem graça. Vocês, afinal, sabem a diferença entre suco de laranja e mera e aguada laranjada, não é? 

Que tinha o Diabo que meter a vida, a Vida, assim maiúscula, no sonho? A VIDA É COMO UMA SACOLA DE LARANJAS! Maldita mania de botar filosofia, trilho e intérprete no troço: era só um sonho com laranjas e uma sacola.

E foi passando o dia e eu fui pondo entulho na jarra do suco, e fui dizendo que cada laranja era um tipo de morte, daquelas pequenas mortes que o sujeito coleciona na vida. E, de luto em luto, far-se-ia o sumo. Quanta bazófia, quanto qualé-qualé! Era só uma sacola de laranjas, de pane em pane, sendo locupletada por redondas e rotundas laranjas. De que gomo sementeiro é que podia surgir espaço para se entender de mortes? Quanto azedume da minha parte! Nem tanta laranja juntaria acre parecer sobre o sonho.

Mas o mal está feito. Na feira, na quitanda, na gôndola do mercado, onde há laranja não consigo mais ver laranja; vejo a morte.

Que fique bem explicado: vários tipos de laranja, vários tipos de morte; uma pilha de laranjas equivale à memória dos meus melhores orgasmos, arrebatados num mal francês de gente pedante: la petite mort. Uma garrafa de Fanta faz rememorar o primeiro “não”, o primeiro gole de porta na cara que a vida nos dá. Um laranjal — visto de longe, cheio de caminhos entre as filas de árvores – só pode ser mesmo um imenso cemitério: inventário de senões e desgostos. Um trator “sem terra”, derrubando a fazenda da Cutrale, só pode ser gesto de poesia, pois só os poetas e os loucos se rebelam contra a morte.

No fim das contas, o que era para ser apenas um sonho cítrico virou um devaneio político-metafísico. E haja linha para costurar sacolas.

Quando éramos homens

Nossa família sempre teve uma curiosidade por certos temas que muitos consideram “inusitados”; algumas amigas de mamãe, por vezes, chegaram a torcer-se em grunhidos, e me lembro de ouvir expressões como “ai, que horror” e “curiosidade mórbida”. Tais censuras, obviamente, só nos serviam de estímulo em nossos pequenos engenhos.

O hábito mais emblemático talvez seja a franca inclinação pela pirotecnia. Logo cedo eu atravessava o pomar velho e ia avisar ao Seu Antônio de que naquela noite gostaríamos de fazer uma bela fogueira. Enchíamos a carriola de galhos, tocos, algumas folhagens secas… Em geral, três viagens eram suficientes para a estrutura da pira.

Nosso totem crescia a olhos vistos ao longo do dia, num esforço coletivo dos homens da família: notadamente meu irmão (que exercerá decisivo protagonismo, como o leitor verá adiante), mas também meu pai, meu sobrinho Pedro e algum eventual amigo mais entusiasta. Por vezes, um visitante ia e, discretamente, jogava só um galhinho seco, quase que não encostando na madeira, naquela típica atitude da classe média de seguir a maioria (afinal, vivemos sob uma democracia) sem dar nas vistas.

A primeira admoestação silenciosa de minha mãe vinha, via de regra, no início da tarde, quando nossa rudimentar edificação já começava a tomar proporções nababescas. Do início da piscina ela já via os galhos mais altos (eu gostava de colocar uma folhagem seca da pitangueira por cima, fazendo as vezes de uma metafísica bandeira, ladeada por nossas espadas de guapuruvus) e franzia o rosto, mas sem ainda dizer nada.

O primeiro questionamento vinha de sopetão. Ela gritava da janela da cozinha para que fôssemos tomar banho para jantar. Do campo, vinhamos cansados de disputar nove finais de Libertadores na seqüência. Meio arfantes, meio em silêncio, caminhávamos dando pequenos totós na bola, um para o outro, num cortejo com os cães. Ao passar pela lateral de casa, mamãe estava enxugando as mãos no avental. “Vocês não vão fazer hoje de novo, né?”, num tom entre uma genuína e esperançosa curiosidade e o brado de um partido minoritário para um congresso vazio. Meu sorriso silencioso lhe respondia. “Ai, seu irmão não perde essa mania, Kikooooo…!”, já virando-se para o terraço da sala. Seus muxoxos se perdiam na brisa da noite de verão, diluídos entre o barulho da novela, o Caetano no som e a conversa de meu pai com meus tios na churrasqueira.

Vou lhes poupar da descrição do horror (calculado; aquela cena já havia se repetido e se repetiria outras dezenas, infinitas vezes) no rosto de minha mãe quando eu marchava triunfante com a garrafa de álcool e um punhado de copinhos plásticos rumo ao pasto.

Meu irmão, arquiteto de longa data, fazia os últimos acertos na estrutura olímpica e colossal de nossa fogueira. O pneu ocupava um lugar de honra, no centro, como um honorável bucrânio em uma cerimônia indígena. Nos instantes seguintes — o ato de posicionar o copo de álcool bem no íntimo da edificação; a escolha do posicionamento de nossas cadeiras, por conta da direção do vento; as últimas convocações (“o Emil ainda está no banho, espera mais um pouquinho!”); o riscar do fósforo; as primeiras chamas, dançantes e coloridas –, reinava um silêncio reverente. Só a natureza se manifestava: cigarras, o vento, corujas e toda uma miríade de currupiares, farfalhares e crepitares.

A coluna de fumaça que emanava do pneu era tão espessa que se destacava do negrume coalhado do céu por quilômetros e quilômetros. Subia numa leve diagonal até muito alto, e então começava a desenhar uma linha gradativamente horizontal, que o vento empurrava para os lados do baixão de serra. Era lindo demais; dava um ar de progresso, de futuro, e ao mesmo tempo de ancestralidade, de práticas milenares, silenciosos atavismos em olhares cúmplices.

Passávamos horas ali olhando, contemplando, comentando o bom andamento da fogueira. De tempos em tempos alguém se revestia de um ar muito sério de técnico pós-graduado e fazia um movimento, ajeitava um galho, mudava um toco de posição, cutucava as brasas com as espadas de guapuruvu. Alguns dos cães permaneciam por ali (Miúcha sempre ao meu lado, infalível), outros atendiam aos clamores do estômago e iam defender o jantar lá para os lados da churrasqueira. O pneu ardia em seu sacrifício de prima donna (pela manhã os arames ainda estariam fumegantes, com uma tez avermelhada). Tudo queimava, e isso era muito belo.

Então eu me sentava numa das cadeiras verdes, as minhas preferidas, e olhava. Meu corpo descansava na paz da espécie. Eu me sentia com um milhão de anos de idade. Adormecia num êxtase tranquilo.

Esbanjar felicidades

então vamos dar as mãos e sair por aí esbanjando felicidades, que agora só cometemos alegrias, preferencialmente bem grandotas, quiçá em letras maiúsculas, em blogs, microblogs, rede sociais, vamos por aí, muitos amigos de verdade a quem anunciar que lindo dia essa sexta-feira ensolarada, finalmente chegou a nossa folga e estamos realmente muito felizes, de uma hora para outra a vida virou uma verdade, conversamos com gente bonita e inteligente apenas para dizer o que é, vamos mostrar que crescemos, amadurecemos, superamos, álvaro de campos estaria orgulhoso, ele que também nunca conheceu quem tivesse levado porrada, ele cujos conhecidos eram campeões em tudo, mas sigamos em frente, de megafone virtual em punho a regozijar-nos, anunciar júbilos, satisfações e prazeres, vamos em frente, que atrás vem gente, não pense, não cogite, não hesite, não temos estômagos para “e se”, a vida é agora, estamos todos bem, surpreendentemente bem, @vidalinda, @mundobelo, passou, passou, beijinho beijinho, tchau tchau.   

Caminho

Descubro que você tinha predileção pelos xampús de perfume suave, desodorante sem cheiro e sabonetes de erva doce. Em uma das gavetas, jazem algumas lâminas, próximas a um estojo com uma máquina de barbear novinha em folha. Os lençóis e cobertores estão perfeitamente dobrados em quadrados empilhados conforme as estações do ano. Na despensa, rio com a lata de atum que traz a data de validade: setembro de 1991. Ao lado, um pacote de macarrão pela metade, fechado com cuidado. Na gaveta do móvel da sala, uma imensidão de descansos de copo decorados.

Te redescubro por meio dos teus objetos e das tuas manias. Refaço impressões, ainda temendo invadir o espaço onde por tantos anos foi a sua morada. Peço desculpa baixinho a cada movimentação, fazendo claro o tom sagrado de percorrer aquele metro quadrado sozinha. Arrisco dizer que tenho a sorte de te ver hoje por inteiro.

Ver que o tempo passou, mas aquele lugar não se moveu, me trazia conforto. Era como se mantendo-o estático, o mesmo aconteceria com a tua memória. Mas o tempo mostrou que as lembranças só se vão se o desejo existe e que o que é material, nos serve temporariamente. Posso deitar no sofá e sentir pulsando o teu colo, enquanto tua mão acaricia a minha cabeça. Ou então, olhar no espelho do banheiro e me surpreender com um instante da tua imagem refletida. Mas sei que a tua presença depende de mim, onde quer que eu esteja. E será assim para sempre.

Hoje pude ouvir claramente você me dizendo: “não tenha medo”, enquanto enfrentava mais uma vez com as suas outras joias queridas, ou como você me dizia, “os maiores bens que poderia ter recebido”, decisões e instantes de inquietude. E como uma querida amiga afirmou, o desafio somente integra mais uma das muitas facetas dessa tempestade que vivemos hoje; a tormenta que ao mesmo tempo em que assusta, nos faz maiores e mais fortes, à medida em que tiramos o melhor proveito dela.

Você continua me guiando por esse mundo, apesar de não estar mais do meu lado e por isso serei eternamente grata.

Permanência

De tudo fica um pouco, escreveu Drummond certa vez. Fica um pouco do choro, da alegria, da flor, do riso. Fica um pouco da dor, da falta, da perda, um pouco daquilo que já foi e não mais é. Um pouco dos cheiros, um pouco dos gostos, um pouco das cores que, ao longe, já não parecem tão vivas. Mas existem. Ficaram.

Um pouco dos olhos, do abraço, da pele, da música. E já não somos as mesmas de antes. Dentro de nós, ou no entorno, muito mudou. A mente se transforma, o coração bate tranquilo, embora tenha de conviver com todos os poucos que ficaram. A vida vai desenhando caminhos para continuar, do jeito que for. Com menos drama para uma, e um pouco mais de drama, necessário, para outra.

Dos amigos, dos amores –de qualquer tipo–, fica um pouco. Ou muito. Da criança ficou um pouco, e ela sorri quando encontra outras crianças que ficaram, disfarçadas sob corpos feitos. Da história ficou um tanto, mas saímos inteiras das tempestades, cada uma à sua maneira. Mas não ilesas. E nem iguais.

Da conversa na calçada ficou um pouco…

“E quando a tempestade tiver passado, mal se lembrará de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terá a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando sair da tempestade, você já não será a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.”

Postagens Antigas »