“Na caixa tem alguns docinhos de Schmidt”
A frase deixou Luís atônito por dois ou três instantes. Nem a leu até o fim. Desde que chegara em São Paulo, há coisa de sete ou oito meses (abril de 55), não havia mais comido aqueles coloridos e sólidos doces de que gostava tanto. Adorava. Numa ou noutra madrugada, ou às vezes na solidão da lida na firma (trabalhava em uma fábrica de maçanetas), se pegava pensando em como seria bom poder pegar às dentadas um doce de abóbora ou um figuinho.
Luís caminhou e sentou-se na cama. Pousou a carta e pegou a caixa. Branca, de papelão, pareceu-lhe um pouquinho pesadinha, o que lhe causou certo frisson de expectativa em relação à quantidade. Começou os procedimentos de abertura (um laço de barbante a amarrava, além de um selo a atar a tampa), mas parou. Resolveu concluir a leitura da carta. Nenhuma das duas ou três notícias posteriores, nem os conselhos e bons votos da irmã, o tocaram mais que a tomada de consciência da existência dos doces.
Agradeceu muito aos céus por estar sozinho enquanto atirou-se ao desatar do laço, com admirável objetividade. Rompeu o laço deslizando o dedinho pelo vão entre a tampa e a estrutura inferior da caixa. Um sopro de sincera felicidade tomou-lhe o coração quando viu que estavam todos lá. Sua irmã ficaria muito feliz se pudesse ver o sorriso que Luís abriu naquele momento.
O leitor será aqui poupado da descrição das intensas batalhas psicológicas que deram-se entre o instinto hedonista e o rigoroso, quase religioso senso de prudência naqueles minutos que se seguiram. O saldo foi de três mortos (um de abóbora, um de abacaxi e um de laranja), sem feridos. Luís dormiu e sonhou com bondes nessa noite, embora não se lembrasse disso ao acordar.
O início da manhã do sábado foi elétrico como só algumas manhãs de sábado podem ser. Era dia de piquenique na represa com a turma do Normal, o que demandava um certo tour de force logístico para quem, como ele, morava no Brás. Cabe apenas dizer que mais um dos de abóbora (estavam infernalmente rubros; deliciantes) foi saboreado. A preciosa caixa foi suavemente deslizada para debaixo da cama.
Lá no piquenique houve sol, risos, música e alguns beijos.
Pensara no figuinho desde a Anchieta, no começo da volta, à noitinha. A bem da verdade, pensara no figuinho desde que lera a frase na carta. Foi justamente por amar tanto os figuinhos, serem os seus favoritos, que ele simplesmente os beliscara com os olhos quando do primeiro exame do conteúdo da caixa. Na manhã que vitimou o segundo de abóbora, o pudor com que olhou para os figuinhos já continha uma zombaria galante. “Não te quero. Nem gosto de figuinhos…”, como se dissesse.
Verdadeiro horror o tomou quando Luís abriu a caixa, finalmente, para sua noite de núpcias gastronômica. Havia formigas por tudo. Pareceu-lhe que todas as formigas do mundo estavam ali. Coração em palpitações, atirou a caixa na parede. Não gritou.
Desde aquele dia, sempre aniquilou todas as formigas que pôde. Pisando, jogando água, chutando terra por cima. Uma luta particular que lhe acompanharia pela vida inteira. Não se rouba figuinhos de alguém assim.