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“Não foi nada”

- O que foi, cara? Já é a segunda vez na semana que eu tento falar disso contigo e você não quer.
- Não foi nada, não. Deixa pra lá – devolveu, olhando perdidamente pela janela do carro enquanto a chuva molhava os vidros.

Nem ele sabia por que não queria falar daquilo, que não era homem de assuntos proibidos. Seria a estafa mental que o aturdia novamente? As semanas a fio em que acordava pesado, precisando descansar mais e mais apesar de dormidas as horas regulamentares de sono? Seria o exílio que lhe haviam imposto? A luta de classes, o inconformismo com as injustiças de sempre? Alma velha da porra, pensou. Pra quê tanto cansaço, meu Deus?, perguntara o seu corpo, ainda que seu coração não dissesse nada. Mundo, mundo, vasto mundo, quem dera ele se chamasse Raimundo, mas não. Chamava-se Carlos, mas Carlos não rimava com porra nenhuma. E delirava. Delirava com o dia em que chegaria para o chefe e diria: “Faz um favor? Não precisa ser agora, mas quando você tiver um tempinho…”. Opressores e oprimidos. Tem remédio, doutor? “Não, meu filho. Não há medicina para o vazio da alma”. Vez em quando sonhava acordado por poucos instantes. Era que a tortura de existir lhe dava uma pequena trégua para que pudesse se transportar para um lugar melhor, apenas para que agüentasse o tranco de ser torturado novamente. Viver cada vez lhe doía mais.

- Não leva a mal, mas eu não tô a fim de falar.

Para ser Fidel a Guevara

para Fernando Paixão e o “Fogo dos rios”

Para ser Fidel a Guevara não se esqueça de Fidel.
Para ser Fidel a Fidel não se esqueça de Guevara.

Martírio não é exclusividade dos mártires e só quem está muito vivo pode se dar ao luxo de estar morto; só quem está muito vivo pode se dar ao trabalho de seguir vivo.

É um erro ter que escolher entre o herói morto – e que morreu na sua luta e vive a inspirar a de outros – e o homem que carrega nas costas a fatura simbólica de um projeto.

Tudo porque não podemos nos esquecer do Che que há em Fidel.
Tudo porque não podemos nos esquecer do Fidel que há em Che.
Tudo porque não devemos nos esquecer do Che que sobreviverá após Fidel.
Tudo porque não devemos nos esquecer do Fidel que sobrevive após Che.

Alguns falariam de Eros e Tânatos, de pulsão de vida e de morte; muitos cindiriam o mundo entre utopia e realidade, entre covardia e coragem; poucos remontariam à  fixação e ao movimento, às areias heraclitianamente movediças e aos categóricos verbos de Parmênides.

Porém, ninguém poderá nega(cea)r um fato: Cuba existe.

Os doces

“Na caixa tem alguns docinhos de Schmidt”

A frase deixou Luís atônito por dois ou três instantes. Nem a leu até o fim. Desde que chegara em São Paulo, há coisa de sete ou oito meses (abril de 55), não havia mais comido aqueles coloridos e sólidos doces de que gostava tanto. Adorava. Numa ou noutra madrugada, ou às vezes na solidão da lida na firma (trabalhava em uma fábrica de maçanetas), se pegava pensando em como seria bom poder pegar às dentadas um doce de abóbora ou um figuinho.

Luís caminhou e sentou-se na cama. Pousou a carta e pegou a caixa. Branca, de papelão, pareceu-lhe um pouquinho pesadinha, o que lhe causou certo frisson de expectativa em relação à quantidade. Começou os procedimentos de abertura (um laço de barbante a amarrava, além de um selo a atar a tampa), mas parou. Resolveu concluir a leitura da carta. Nenhuma das duas ou três notícias posteriores, nem os conselhos e bons votos da irmã, o tocaram mais que a tomada de consciência da existência dos doces.

Agradeceu muito aos céus por estar sozinho enquanto atirou-se ao desatar do laço, com admirável objetividade. Rompeu o laço deslizando o dedinho pelo vão entre a tampa e a estrutura inferior da caixa. Um sopro de sincera felicidade tomou-lhe o coração quando viu que estavam todos lá. Sua irmã ficaria muito feliz se pudesse ver o sorriso que Luís abriu naquele momento.

O leitor será aqui poupado da descrição das intensas batalhas psicológicas que deram-se entre o instinto hedonista e o rigoroso, quase religioso senso de prudência naqueles minutos que se seguiram. O saldo foi de três mortos (um de abóbora, um de abacaxi e um de laranja), sem feridos. Luís dormiu e sonhou com bondes nessa noite, embora não se lembrasse disso ao acordar.

O início da manhã do sábado foi elétrico como só algumas manhãs de sábado podem ser. Era dia de piquenique na represa com a turma do Normal, o que demandava um certo tour de force logístico para quem, como ele, morava no Brás. Cabe apenas dizer que mais um dos de abóbora (estavam infernalmente rubros; deliciantes) foi saboreado. A preciosa caixa foi suavemente deslizada para debaixo da cama.

Lá no piquenique houve sol, risos, música e alguns beijos.

Pensara no figuinho desde a Anchieta, no começo da volta, à noitinha. A bem da verdade, pensara no figuinho desde que lera a frase na carta. Foi justamente por amar tanto os figuinhos, serem os seus favoritos, que ele simplesmente os beliscara com os olhos quando do primeiro exame do conteúdo da caixa. Na manhã que vitimou o segundo de abóbora, o pudor com que olhou para os figuinhos já continha uma zombaria galante. “Não te quero. Nem gosto de figuinhos…”, como se dissesse.

Verdadeiro horror o tomou quando Luís abriu a caixa, finalmente, para sua noite de núpcias gastronômica. Havia formigas por tudo. Pareceu-lhe que todas as formigas do mundo estavam ali. Coração em palpitações, atirou a caixa na parede. Não gritou.

Desde aquele dia, sempre aniquilou todas as formigas que pôde. Pisando, jogando água, chutando terra por cima. Uma luta particular que lhe acompanharia pela vida inteira. Não se rouba figuinhos de alguém assim.

De repente ela saiu da delegacia algemada, assustada e arredia. Em um instante passou em minha cabeça toda aquela história de jornalistas e abutres. Coloco o gravador na boca dela e pergunto por que ela abandonou o bebê? Embora tudo indique que ela seja mesmo a mãe da criança e a tenha colocado em uma caçamba, eu tenho certeza disso? Então, nesse caso, devo perguntar SE ela abandonou o bebê? Provavelmente não teria tempo para uma segunda pergunta: seriam apenas alguns passos a mais até o camburão. Estarei constrangendo-a com minha pergunta incerta e incômoda? Humilhando-a? E, por outro lado, não tem ela o direito de se manifestar? De dar a sua versão? Perguntei e ela se manteve calada. Puseram-na no porta-malas do camburão e… bam! Fecharam a porta, e meu coração começou a disparar. Uns segundos antes que a viatura partisse um cinegrafista ainda filmava a mulher com a câmera colada no vidro. Abutreria grau mil. O carro foi embora e um silêncio tomou conta do lugar. Torço pra que alguém tivesse pensado o que eu pensei. Que condições de vida terão feito aquela mulher abandonar um bebê em uma caçamba? Acaso não estamos, mais do que diante de um ato de crueldade, encarando um drama social? Chega de moralismos medioclassistas – “nem os animais fazem uma coisa dessas”, “por que não deixou na porta de um hospital?” -, de vilanizações, mocinhos e bandidos, telenovelas da vida real. Por que não buscar compreender antes de julgar, por mais terríveis que sejam os fatos? Por que não destapar os olhos e enxergar que essa mulher é, como todos somos, produtos sociais? Ninguém tem sete filhos, sendo quatro menores de idade, impunemente. Quantos serão os pais de seus filhos? De que forma a terão tratado ao longo da vida? Quem serão seus pais? Que educação terá tido? Que estrutura tem essa mulher pra realizar trabalhos em uma casa de repouso, trabalho que exige certo preparo emocional? Que terá feito ela se deitar com um vigia 19 anos mais velho do que ela e feito um filho quase aos 40 anos? A que grandes dilemas poderá ter se imposto uma mulher cujos estudos não chegaram ao fim do primário? O que passará na cabeça de uma mulher com três filhos pequenos e apenas 600 reais mensais para sustentá-los quando chegam os sinais de uma gravidez? (O que você, que me lê, faz com 600 reais em um mês?) E quando o pai menospreza o fato? Lembrei de Vidas Secas quando o delegado disse que ela só soube informar o primeiro nome do pai da criança: não sabia o sobrenome dele e nem a idade. Terão as condições sociais deixado essa mulher em um estado próximo da animalização? Em caso afirmativo, de quem é a culpa? Em caso afirmativo, quais mesmo foram as mãos que depositaram aquele bebezinho na caçamba?

Uma beleza triste

Disseram ao ouro que ele tinha uma beleza tácita, mas ele não se convencia de si mesmo.

- Acordei prateado hoje.

Disseram ao ouro que ele era o raro entre os raros, disseram que sua beleza triste era circunstancial.

- Prefiro continuar prateado amanhã.

Disseram ao ouro que aquilo não era tristeza, era a lua confundindo-nos sobre o seu amarelo.

- Prefiro ser prateado para sempre.

Disseram ao ouro que a lua haveria de se arrogar o direito de ser o amanhã amanhã também.

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