A vida é como uma sacola de laranjas.
Textos com frases diretas e definições presunçosas tendem a angariar antipatias, mas em geral alcançam o feito de chutarem para longe a indiferença.
Por isso, esse chamariz: “a vida é como uma sacola de laranjas.”
Eis o postulado tolo: a sacola vazia é preenchida com laranjas e quando a alça não suporta o peso ela se arrebenta e as frutas caem em rodo pelo chão.
É só isso. Alguém corre para apanhá-las. Esse alguém repara a sacola velha, até a época em que os consertos valham. Quando isso não mais compensar o tostão, o alguém vai e compra [ou fia] outra sacola.
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E no sonho que eu tive as laranjas não eram uma metáfora, eram laranjas mesmo, e só! Depois, acordado, fiquei inconformado com o sonho sem simbologias, assim tão cru, com casca e sem graça. Vocês, afinal, sabem a diferença entre suco de laranja e mera e aguada laranjada, não é?
Que tinha o Diabo que meter a vida, a Vida, assim maiúscula, no sonho? A VIDA É COMO UMA SACOLA DE LARANJAS! Maldita mania de botar filosofia, trilho e intérprete no troço: era só um sonho com laranjas e uma sacola.
E foi passando o dia e eu fui pondo entulho na jarra do suco, e fui dizendo que cada laranja era um tipo de morte, daquelas pequenas mortes que o sujeito coleciona na vida. E, de luto em luto, far-se-ia o sumo. Quanta bazófia, quanto qualé-qualé! Era só uma sacola de laranjas, de pane em pane, sendo locupletada por redondas e rotundas laranjas. De que gomo sementeiro é que podia surgir espaço para se entender de mortes? Quanto azedume da minha parte! Nem tanta laranja juntaria acre parecer sobre o sonho.
Mas o mal está feito. Na feira, na quitanda, na gôndola do mercado, onde há laranja não consigo mais ver laranja; vejo a morte.
Que fique bem explicado: vários tipos de laranja, vários tipos de morte; uma pilha de laranjas equivale à memória dos meus melhores orgasmos, arrebatados num mal francês de gente pedante: la petite mort. Uma garrafa de Fanta faz rememorar o primeiro “não”, o primeiro gole de porta na cara que a vida nos dá. Um laranjal — visto de longe, cheio de caminhos entre as filas de árvores – só pode ser mesmo um imenso cemitério: inventário de senões e desgostos. Um trator “sem terra”, derrubando a fazenda da Cutrale, só pode ser gesto de poesia, pois só os poetas e os loucos se rebelam contra a morte.
No fim das contas, o que era para ser apenas um sonho cítrico virou um devaneio político-metafísico. E haja linha para costurar sacolas.