I.
Lembro-me tanto da noite em que fomos tomar uns tragos naquele piano bar da Avanhandava. Você estava linda (como sempre) e, de alguma maneira, estranhamente vulnerável (como nunca). Você me fascinava, desde o início me fascinou. O diacho é que você sempre me comoveu, isso é que são elas. Saí dali com gosto de infinito encontrado no fundo do copo.
II.
Mergulhou nos sonhos de outrora com os olhos fechados, tomado por um redondo, deleitado prazer, próprio daqueles que se atiram nos próprios abismos sem grandes hesitações. Lembrou da brisa que vinha acariciar-lhe a face por aquela grande janela sobre a noite. Pastoreava aquele elétrico sobe e desce, os mais variados tipos. Sentiu-se plenamente amado, preenchido. Por que diabos aquilo terminaria, irremediavelmente, por sufocar-lhe? Até hoje, ele não faz lá muita idéia.
III.
Avenida Angélica, número tal. Atarrachou a gravata borboleta bordô e esticou os cantos do terno cinza. Respirou profundamente o ar adocicado do cair da noite, despertando o perfume de suas damas por trás dum punhado de muros pelo bairro. Será por detrás deste muro que cresce tão perfumada flor? Ou será daquele?, suspira o jovem, caminhando por entre cachorros (maiores ou menores) devidamente acompanhados por senhorinhas pretensamente refinadas e o exército do lumpesinato geral encerrando o expediente ou trocando o turno na propriedade de sêo patrãozinho. Algo naquela garota exercia sobre ele uma espécie de encantamento. Talvez aquele olhar curioso; talvez aquela rasgada gargalhada; talvez o nostálgico ar de proibido (“canalha. canalhíssimo!”, diria o outro). Assobiava um sambinha sincopado.
IV.
“Você morreu pra mim.” É isso a única coisa que ele diria para ela se ficassem frente a frente. Um hipotético espectador privilegiado notaria um significativo suspiro escondido por entre as curvas das letras que saíam da boca dele, enquanto falava. Um tipo meio indistinto de cansaço. Um cansaço de séculos, milênios. E dos olhos dele brotariam estalactites invisíveis, refletindo a resignada constatação de que lugar de defunto é debaixo de sete palmos de terra e uma laje fria com datas e amorosa filha, irmã, mãe e amiga no cemitério.
V.
Escrevia para que a força de seus gritos soasse mais alto que as vozes de seus demônios; não queria mais escutá-las. Amargava essa saudade disforme de uns tantos quantos lugares e pessoas que não conhecia. Às vezes pensava em virar as costas para tudo e cruzar algum oceano, ou ao menos pedágios suficientes para que se sentisse distante o suficiente de suas raízes. Precisava de algum caminho para esquecer daquelas lembranças tão antigas, de quem diabos foi a idéia de remexer nessas gavetas? eu não sei por que ainda dou ouvido a certos sabiás.
N.A.: Pelo menos um dos fragmentos acima é estritamente verdadeiro. E não menos que três têm uma dose de mentira/invencionice/largo devaneio, diluída em diferentes gradações de vocação para o vôo.
